THE 5 SECONDS OF SUMMER SHOW, UMA EXPERIÊNCIA ALÉM DA MÚSICA

Era o amanhecer do dia 25 de julho de 2023, em São Paulo, o relógio marcava exatamente 5h36. A essa hora, poucas pessoas e carros cruzavam as largas vias da Avenida Paulista, enquanto a cidade ainda parecia adormecida sob o suave brilho do sol e o vento frio que soprava. Sob a terra, na estação de metrô Trianon, um cenário completamente diferente se desdobrava. Era como se um formigueiro humano estivesse em plena atividade, com centenas de pessoas se movendo freneticamente.
Em meio à multidão, quatro garotas se diferenciavam com sua produção: maquiadas, com jaqueta de couro, blusão xadrez quadriculado e vestindo roupas pretas que contrastavam com a simplicidade das vestimentas dos demais passageiros.
Uma dessas garotas era eu. Algumas pessoas estavam uniformizadas ou trajavam roupas comuns do dia a dia, carregando mochilas pesadas nas costas, todas compartilhavam de um único objetivo naquele instante: a pressa de chegar ao seu destino.
Para mim, essa correria tinha outro sabor. Eu sabia que, ao contrário da maioria, minha manhã de terça-feira não terminaria no trabalho ou em compromissos. Tinha tirado folga para estar ali, pronta para viver um momento único.
Mas para onde estávamos indo? Estávamos nos dirigindo ao local do tão aguardado show da banda 5 Seconds Of Summer, que retornava ao Brasil após 5 anos.
Enquanto eu avançava na estação, sentia a felicidade e o privilégio de seguir para o show da minha banda, sabendo o quanto isso significava. Esta seria a primeira vez que trariam sua turnê oficial aos fãs brasileiros, com apresentações marcadas para o Rio de Janeiro e São Paulo. Essa era a razão pela qual estávamos dispostas a madrugar no local do show, enfrentando o frio matinal, o sol vespertino, o desconforto, a sede e as longas filas que nos aguardavam até o horário do tão aguardado espetáculo.
Nosso desejo era claro: estar o mais próximo possível da grade, garantindo assim a melhor visão do show. Por esse motivo, às 06:18 da manhã, já estávamos na fila. Eu estava ali, marcando o lugar 68 da fileira, para ir ao segundo show da turnê no Brasil, eu já havia ido no primeiro show, no Rio de Janeiro, dois dias antes, mas vou contar tudo do início, em ordem cronológica.
Para mim, esses shows significavam muito mais do que apenas a oportunidade de assistir a uma performance ao vivo. Era a realização de um sonho cultivado ao longo de 11 anos de devoção como fã. Por diversas circunstâncias, eu havia perdido a chance de comparecer aos shows anteriores da banda no Brasil, mas quando soube dos dois shows que aconteceriam em 2023, aguardei ansiosamente por sua divulgação, sabendo que seria minha oportunidade de ir, e não só finalmente conhecer a banda, mas encontrar pela primeira vez as amigas que fiz online - no X, antigo Twitter - ao longo da minha jornada de fã.
Eu estava determinada a não perder essa chance, mesmo que significasse enfrentar quatro voos e percorrer 5.300 km, de Natal para o Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro para São Paulo, e o retorno para casa, tudo para alcançar a realização desse sonho.
NO, BUT… WHO IS 5SOS?

Foto: Reprodução Internet
Vamos lá, antes de contar tudo sobre a minha experiência vivenciando os shows, acho que preciso contextualizar, para aqueles que não conhecem, quem é a banda 5 Seconds Of Summer.
Composta por quatro integrantes australianos, Luke Hemmings, Michael Clifford, Calum Hood e Ashton Irwin, a 5 Seconds of Summer (ou 5SOS) nasceu oficialmente em Sydney, em dezembro de 2011. Luke, Calum e Michael já se conheciam dos tempos de escola, onde compartilhavam o mesmo sonho: criar música e formar uma banda. No entanto, faltava algo – ou melhor, alguém, que completasse essa dinâmica. Foi aí que Ashton entrou para o grupo, somando como baterista e selando a formação original da banda.
Luke, que já tinha um canal no YouTube chamado “Hemmo1996”, usava o espaço para postar covers de grandes sucessos da época. Com a banda formada, eles começaram a postar mais conteúdos na plataforma, publicando versões de músicas como “I Miss You”, do Blink-182, “A Drop in the Ocean”, de Ron Pope, e “If It Means a Lot to You”, de A Day to Remember. Mas foi somente em Maio de 2012 que a banda lançou sua primeira música autoral, “Gotta Get Out”, eles nem imaginavam que essa seria a canção que mudaria o rumo da vida deles. O lançamento do primeiro EP, intitulado Unplugged, trouxe ainda mais visibilidade à banda.
Em junho de 2012, eles embarcaram na primeira pequena turnê pela Austrália, a "Twenty Twelve Tour", com ingressos esgotados em todas as datas. O grupo já era assunto entre os fãs australianos, e a popularidade cresceu ainda mais em outubro de 2012, quando foram convidados para abrir os shows da turnê "Whatever World Tour" da banda Hot Chelle Rae no país.
Foi através da música “Gotta Get Out” que Louis Tomlinson, da boyband One Direction, os descobriu e divulgou no X em novembro de 2012. Após isso, algumas coisas começaram a acontecer e impulsionar os caminhos da recém formada banda.
Fonte: X / Reprodução Internet
Foi nesse cenário em que a virada global veio com o apoio da One Direction. Em 2013, eles foram chamados para abrir os shows da "Take Me Home Tour", que passou por Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e outros países. Foi a oportunidade que consolidou a 5SOS no cenário mundial. O sucesso da parceria foi tão grande que, um ano depois, em 2014, a banda voltou a abrir os shows da turnê mundial "Where We Are", da mesma boyband.
Nesse período, a banda também começou a se destacar com seu próprio material. Em fevereiro de 2014, lançaram o hit "She Looks So Perfect", o primeiro single oficial da carreira, que rapidamente alcançou o topo das paradas na Austrália, Nova Zelândia, Irlanda e Reino Unido. Foi ali que tudo mudou de maneira definitiva, tanto para eles quanto para nós, fãs.
Desde então, eles lançaram uma sequência de sucessos como "She's Kinda Hot", “Amnesia”, "Youngblood", "Easier", "Teeth" e "Who Do You Love", construindo uma carreira sólida. Atualmente, com cinco álbuns lançados – "5 Seconds of Summer" (2014), "Sounds Good Feels Good" (2015), "Youngblood" (2018), "CALM" (2020) e "5SOS5" (2022) – a banda só cresceu, amadurecendo tanto musicalmente quanto na conexão com seu público.
Os shows da turnê "The 5SOS Show" no Brasil marcaram a terceira visita da banda ao país. A primeira vez que a 5SOS se apresentou em solo brasileiro foi no icônico Rock in Rio, em 2017, seguido por apresentações em São Paulo e Porto Alegre. Em 2018, eles retornaram com uma rápida passagem para um show intimista em São Paulo, promovendo o álbum Youngblood. Agora, em 2023, a banda finalmente realiza sua tão esperada primeira turnê oficial no Brasil, algo que os fãs aguardavam com ansiedade há anos.
O TÃO ESPERADO ANÚNCIO
DA TOUR NO BRASIL

Após a pandemia em 2020, os planos de todas as pessoas, inclusive o da banda 5SOS, mudaram. Com um lançamento de álbum frustrado, que coincidiu com o início da pandemia em março daquele ano, e uma tour cancelada, o que restava era… esperar. Confinados assim como o restante do mundo.
Durante esse período, muitas dinâmicas mudaram, e não seria diferente nos fandons. Sem muitas opções do que fazer e de como se entreter, os fãs do mundo inteiro voltaram a ser cronicamente online, especialmente no X. Foi nesse período que recuperei minha conta de fã, criada em 2013, mas que estava inativa desde 2016, quando perdi o acesso. Até então, eu tinha deixado de lado as redes sociais voltadas para fã clube.
Durante a pandemia, no entanto, voltei a interagir com o fandom, e logo reencontrei amigas de longa data, fiz novas amizades e redescobri o quanto esses espaços podem ser acolhedores, um lugar de pertencimento e refúgio para fugir de uma realidade angustiante. Eu passava horas interagindo com as web amigas e acompanhando cada post dos integrantes da 5SOS, que, naquele momento, estavam mais presentes no digital, faziam lives, postavam mais, interagiam com os fãs. Nesse período, tive interações com a banda novamente depois de muitos anos. Antes, eu só tinha experienciado isso uma vez lá em 2014, quando eu nem sequer sabia inglês direito (pode-se reparar com minha mensagem no print abaixo), eu pude sentir o feeling de ter o famigerado “notice” deles — quando existe alguma interação direta como like, reply ou retweet — numa interação com o vocalista Luke Hemmings. Para um fã, é como tocar o céu por alguns segundos, um frio que percorre o corpo dos pés à cabeça, o coração acelera, você gela, encara a tela, atualiza várias vezes até ver que realmente aconteceu.

Fonte: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
As redes sociais realmente assumiram um papel de grande influência no modo em como os artistas têm se relacionado com o seu público, não somente na maneira de tornar seu trabalho visível e com maior alcance, mas também na forma como estabelecem relações com a sua audiência.
Se existe algo que muita gente cultivou em comum durante a pandemia, foi a bendita lista de “coisas para fazer quando tudo isso acabar”. Nas conversas que surgiam no fandom e nas trocas com minhas amigas, um desejo sempre se destacava: viver a experiência de estar em um show da 5SOS. Falávamos sobre o dia em que finalmente iríamos nos encontrar, o que vestir, quais lugares explorar, e, claro, nossos planos para tentar vê-los de perto. Passávamos horas imaginando esse momento. A banda tinha um álbum novo, uma turnê interrompida, e tanto eles quanto nós, fãs, queríamos viver essa experiência ao vivo.
A pandemia se estendeu além do imaginável, adiando sonhos e deixando um vazio. Quando 2021 chegou, trazendo os 10 anos da 5 Seconds of Summer, foi como uma faísca no escuro para o fandom. A banda presenteou os fãs com novas músicas, um podcast e o filme comemorativo The 5 Seconds of Summer Show - A 10 Year Celebration. Foi o suficiente para despertar em nós um sinal de alerta: será que uma nova turnê estava a caminho?
Logo no início de 2022, veio a resposta: a Take My Hand Tour foi anunciada, prometendo um setlist com as faixas do álbum CALM (2020) e novos singles. Mas a esperança logo deu lugar a um sentimento familiar, mais uma vez, a América do Sul estava fora do roteiro: “frustration, desperation”, já diria 5SOS na música Permanent Vacation.
Chegou 2022, e não desistimos. Quando, ao fim da TMHT, a banda lançou seu quinto álbum, 5SOS5, a expectativa e pressão dos fãs brasileiros pela vinda da banda ao país só aumentaram. Talvez a banda nunca tivesse visto e ouvido tanto “come to Brazil” como naquele período de euforia. Foi uma campanha massiva, mas espontânea, nada combinado, apenas um desejo coletivo que gritava de dentro para fora. Muitos de nós já esperávamos por esse momento; afinal, voltar aos shows depois de um longo período de isolamento social criou uma demanda reprimida, especialmente no setor de eventos e entretenimento. A onda de shows e festivais disparou, assim como nossa ansiedade.
A 5SOSFam aguardava por um anúncio a qualquer momento.
Os jornalistas musicais, que sempre divulgam informações sobre o mercado da música no Brasil, já não aguentavam mais o fandom perguntando diariamente: “E a 5SOS, vem quando?”
Fonte: X / Reprodução Internet
6 de abril de 2023.
Imagem: @5SOSBRNoticias / Reprodução Internet
O anúncio da turnê The 5 Seconds Of Summer Show finalmente saiu, e eu fiquei em choque, olhando para a tela por alguns minutos, querendo reagir, mas sem saber como, afinal, ali estava, bem na minha frente, a chance real de realizar esse sonho. Foram 40 cidades com shows confirmados ao redor do mundo, dentre elas Rio de Janeiro e São Paulo. Dessa vez, eu tinha o dinheiro e a idade o suficiente para viver essa experiência, algo que não tinha quando era mais nova. A Dayane de 25 anos podia, finalmente, viver esse sonho e, naquele momento, nem sabia como processar a informação. Logo destravei, chorei, tirei print do anúncio e saí enviando para amigas, mãe, noivo. Naquele instante, a timeline do X já fervilhava de reações, surtos e comemoração pelo anúncio tão aguardado. Seriam dois shows confirmados, cinco anos após a última passagem da banda pelo país. Desta vez, eles tinham conquistado uma base maior de fãs, pois, desde a última vinda em 2018 e com o lançamento do álbum Youngblood, a banda teve o segundo grande boom de sua carreira. Por isso, essa vinda em 2023 era ansiosamente esperada por muita gente.
Banner oficial da turnê e tweets de algumas reações dos fãs após o anúncio.
Imagens: X / Captura de tela / Reprodução Internet
Uma semana depois, abriram as vendas, o que, entre os fãs, é mais conhecido como um momento “jogos vorazes”, salve-se quem puder, já que, em shows com grande demanda, os ingressos costumam esgotar em minutos. Mas, com a ajuda de alguns amigos, consegui garantir ingresso para ambos os shows. Daí em diante, foi só contagem regressiva, afinal, faltavam apenas três meses para o grande momento.
E sabe como é a vida de fã, né? Os preparativos começaram imediatamente, cada detalhe foi pensado. Pessoalmente, passei as semanas seguintes vivendo e respirando o que seria esse evento, já que, saindo de Natal no Rio Grande do Norte, eu precisava planejar muito mais do que o outfit, aquele que sempre imaginei enquanto salvava referências no Pinterest.
Era hora de organizar passagens, hospedagens, dividir quartos com as amigas, traslado, tudo. Por mais real que parecesse, ainda parecia um sonho. Quando passamos tanto tempo sonhando com algo, o momento de tornar tudo real é quase como um detalhe que confirma que você não está ‘fanficando’, mais uma vez mas sim materializando aquilo que por anos manifestou.
Se pareço um pouco exagerada ao trazer esse relato, peço desculpas, mas essa sensação é realmente difícil de descrever. Talvez, ao final desta reportagem, você, leitor, compreenda melhor essa emoção de pertencimento e realização, algo que vai muito além do banal ou tangível. É uma emoção pura e aflorada, que me molda como pessoa, amiga, filha e profissional. Ser fã é isso: é sentir e viver. E eu estava ali, prestes a concretizar tudo isso.
rio de janeiro

Estar na Cidade Maravilhosa para ver minha banda favorita ao vivo parecia cena de um filme que eu mesma teria roteirizado aos 16 anos. Eu já tinha o script inteiro na cabeça, mas a realidade foi muito além do que qualquer imaginação juvenil poderia prever.
Cheguei ao Rio de Janeiro acompanhada da minha amiga Nala - Ana Laura, também fã da banda e conterrânea de Natal, com quem fiz amizade pelo X. Após um voo com conexão em Brasília, seguimos direto para o hotel, onde nos reunimos com mais duas amigas: Bruna Amandio, de Camboriú/SC, e Maísa Matos, de Manaus/AM.
Quando as vi à primeira vista, minha cabeça teve um breve delay para associar que minhas amigas, que sempre conversei através das telas, estavam ali na minha frente, me aguardando para gente correr pra fila do show. O destino nos prepara coisas como essa, e eu não poderia ser mais grata. Chegando no hotel a correria foi grande para fazer check-in, nos arrumar e ir para a fila o quanto antes.
Chegamos no Vivo Rio por volta de 12h40 e nos colocamos abaixo das sombras das árvores para nos protegermos do sol carioca. Conhecemos na fila, por acaso, Alice, que se juntou a nós e foi um match perfeito pro nosso grupo, provando que até mesmo nas filas dos shows podemos fazer novas amizades.
Preciso dizer que minha amizade com a Maísa surgiu lá em 2014, por causa da nossa paixão em comum pela One Direction. É uma década inteira de uma amizade duradoura conectada pela música. Agora, finalmente, juntas em uma mesma cidade, estávamos prestes a realizar o sonho de vivenciar esse show do 5SOS lado a lado.
Nesse dia, passamos 8 horas na fila até o horário do show, nos conectamos, rimos e tivemos muito tempo para sermos amigas no ao vivo.
Desde o início, sempre declarei que precisava ir aos dois shows, mesmo que fosse exatamente a mesma performance. Na minha mente, a lógica era que no primeiro show, eu sentiria o choque de estar vivendo aquilo pela primeira vez, como um filme em câmera lenta; no segundo, estaria menos anestesiada e mais consciente de que tudo aquilo era, de fato, real e não um filme.
Portanto, neste trecho, vou compartilhar minhas primeiras impressões de vivenciar um show do 5SOS em terras brasileiras. Nos próximos, trarei detalhes do show interativo, dinâmico e personalizado que eles apresentaram aos fãs nesta turnê, e o quanto essa narrativa e imersão criada por eles trouxe uma conexão especial com os fãs que os acompanham.
Ah, e antes que eu esqueça de mencionar: ao final desta reportagem, você pode ouvir o podcast "Além da Música", dividido em quatro episódios, com a participação de fãs mencionados ao longo do texto. Elas compartilham suas histórias e reflexões sobre comunidade, saúde mental, conexão com a banda e, claro, sobre o The 5SOS Show no Brasil.
countdown!

Havia anoitecido e o relógio finalmente batia às 19:35 momento em que entramos no Vivo Rio após longas horas de espera. E sim, sim, eu sei exatamente o horário de cada momento, pois os registros das mídias do celular me recordam tudo. A regra de um show quando os portões abrem é: bipar o ingresso e correr o quanto conseguir para ficar o mais próximo possível do palco. Foi o que fizemos.
Nessa corrida chegamos na grande e acho que fiquei no máximo há 5 metros de distância, e, ser alta, muitas vezes tem suas vantagens, eu conseguia ver o palco perfeitamente, já pude testar minha visão com o show de abertura da Day Limns e sua banda, show que teve duração de 1 hora. Às 20:40 nos restavam 20 minutos a mais para iniciar o show do 5 Seconds Of Summer, esses 20 minutos com certeza pareciam durar muito mais do que as 8 horas de fila. A ansiedade era tanta que eu estava com um embrulho no estômago e uma inquietação sem fim.
Às 21:05 as luzes apagam. Inicia o vídeo de introdução ao show e uma voz masculina narrando a apresentação que rodava no telão, com as imagens dos integrantes sendo mostradas até que o som diminui e o narrador completa “AND HERE IT IS: 5 SECONDS OF SUMMER!”... Os gritos do público tomam de conta. Meu coração gelou quando eles entraram e eu vi a silhueta deles no palco.
Vídeo:: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
A impressão à primeira vista é inenarrável, mas estou aqui para isso, então vou tentar encontrar as palavras certas para falar. Sem exageros, quero descrever a sensação de estar presente, de corpo e alma, no show de uma banda que tanto admiro e que marcou momentos importantes da minha vida.
Eles abriram o show com “Bad Omens”, música do álbum 5SOS5. Eu costumo dizer que nunca superarei o fato de ter vivido essa música ao vivo e cantado, junto com eles, o trecho da ponte:
“We go 'round again, we jump back in bed That's what you do when you love somebody”
Sempre adorei essa música, mas agora, quando a ouço nos fones, ela tem um significado especial. A conexão aumentou tanto que meu sentimento por ela cresceu 200%.
Quando você ama algo, tudo o que envolve esse algo, ou alguém, te emociona e te conecta profundamente. Ali estava eu, entregue, envolvida, cantava feliz, emocionada e dançante com pessoas que eu nunca vi, mas parecíamos que éramos besties, como no refrão de “Jet Black Heart”. Quem era aquela querida do meu lado? Na época, postei no X tentando achá-la no fandom, sem sucesso, mas fiquei com a memória de ter dividido momentos assim com quem compartilhava o mesmo amor e emoção de estar ali.
Vídeo:: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
Durante o show, eu pegava o celular para gravar e ficava com a mão lateralmente e com o olhar para fora da tela, procurando cada um deles no palco. O celular só ficava estendido para captar o momento, enquanto meus olhos capturavam cada cena ao vivo.
Muitas pessoas comentam negativamente sobre o hábito de filmar durante os shows, aquele "mar" de celulares erguidos para capturar cada take, em vez de simplesmente viver o momento. Discordo. Para mim, a necessidade de gravar aquele momento era uma forma de eternizar a certeza de que eu estava vivendo aquela experiência. Talvez seja por isso que sentimos esse impulso de registrar: o medo de que a memória se perca com o tempo.
Por mais que a "amnésia pós-show" — comentada por tantos médicos psiquiatras e psicólogos, como relatado aqui na reportagem da CNN — embaralhe nossas memórias, eu queria realmente viver cada segundo ali, mas, ao mesmo tempo, queria guardar os registros para ver depois. Eu queria viver de fato naquele instante, em cada minuto.
Registrar momentos como o público gritando repetidamente "Michael, eu te amo" é uma prova clara de quanto os fãs estavam determinados a fazê-los sentir-se acolhidos e amados pelo público brasileiro. A energia e o carinho eram palpáveis, e Michael, sem dúvida, sentiu isso, mesmo não entendendo de cara o que estávamos gritando. Ele retribuiu de forma simbólica no show de São Paulo, algo que comentarei mais adiante...
Vídeo: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
Me soava estranho ver aquilo acontecendo ao vivo, porque em todos os anos sendo fã, parece até que já decorei todos os movimentos deles no palco, como agem em cada música, interações, como tocam os instrumentos, já vi isso tantas vezes através das redes sociais, que parecia que eu estava numa tela, rolando a timeline do X para ver os perfis de updates postarem como estavam sendo os shows.
Eu ficava a todo momento me forçando a cair na real que minha vez tinha chegado. Eu estava ali com eles, com minhas amigas e com mais centenas de fãs. O que mais eu poderia querer?
Por sorte, ao final do show, eu tive a benção de uma palheta do show ser jogada exatamente ao meu lado. Eu só recordo de automaticamente abaixar para pegar, colocar a mão no chão e sentir as pessoas pisando na minha mão e minhas amigas falando “já deu, já deu, ela pegou!”. E lá estava ela, minha pequena lembrança de um momento inesquecível. Verde e amarela, personalizada para a passagem da turnê pelo Brasil.
Fotos: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
Voltei para o hotel extasiada, ainda tomada por cada segundo que havia acabado de viver. Dormir? Juro que tentei, mas era quase impossível; eu e as amigas não parávamos de falar, revivendo cada detalhe. A gente já não estava mais no Vivo Rio, mas, com certeza, a nossa mente ainda estava lá. Mas precisávamos descansar, pois no dia seguinte, já teríamos um voo marcado para o próximo destino e, com ele, mais um sonho se desenrolando em São Paulo.
Fonte: X / Reprodução Internet
bruna AMANDIO
Fotos: Arquivo pessoal / Bruna Amandio
maísa MATOS



Fotos: Arquivo pessoal / Maísa Matos
ana laura


Fontes: Arquivo pessoal / Ana Laura
HERE WE COME, SÃO PAULO!

O dia 24 de julho de 2023 não foi uma segunda-feira comum. Eu, Bruna e Nala nos despedimos da Maísa para ir à Terra da Garoa, onde iríamos encontrar nossa amiga Kaoma. Preciso mencionar que a Kaoma é mais uma das amigas que conheci em 2020 por causa da banda. Já havíamos nos encontrado em outras duas ocasiões, e, até hoje, nosso contato vai além deles. Mas, voltando...
Nos hospedamos juntas e passamos a segunda-feira nos organizando para o dia seguinte. Dessa vez, teríamos uma experiência diferenciada: ÍAMOS PARA O SOUNDCHECK VIP EXCLUSIVO COM A BANDA, que é basicamente uma passagem de som em que eles respondem algumas perguntas de fãs selecionados e cantam algumas músicas.
Anoiteceu e saímos para comprar comida e preparar os lanches para nos sustentar ao longo dia na fila, pois passaríamos o dia por lá, enfrentando horas e horas de espera.
No fim das contas, o lanche, o outfit e o plano para o dia seguinte estavam prontos e checados. Deitamos e ficamos conversando até o sono chegar. O relógio bateu 2h da manhã até que, finalmente, algumas horinhas de cochilo foram aproveitadas.
25 DE JULHO DE 2023.
THE DAY!

Às 5h23 da manhã já estávamos prontas no elevador rumo para enfrentar o fervilhado de pessoas no metrô. Foram algumas estações e baldeações até chegar na Barra Funda, mais especificamente no espaço Unimed, local onde aconteceria o show.
Cada minuto em direção à fila era valioso para chegarmos cedo e garantir um bom lugar na fila. Às 6h18 marcamos definitivamente o nosso lugar, eu era a posição 68 da fila do soundcheck. Havia uma pequena diferenciação na contagem da fila para quem ia para o VIP. Os demais se dividiram entre outros setores.
Vídeo: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
A fila.

Uma das experiências mais curiosas e divertidas da fila é o fato de você começar a identificar quem é quem do fandom. Antes, as pessoas que eram apenas ícones do X passam a ter um rosto real e você fica “meu deus, essa pessoa realmente existe e ela também está aqui”. Encontrei tantos moots (pessoas que sigo nas redes sociais), abracei tanta gente especial.
Há quem diga que ser fã se limita a uma histeria coletiva, mas, de agora em diante, essa reportagem vem aqui para provar que as conexões que surgem online se estendem para muito além de uma tela, e se tornam palpáveis de diversas formas, desde amizades duradouras à profissionais que se tornaram especialistas em sua formação por conta de uma influência da vida de fã.
Nesse dia, além de conhecer e reconhecer tantos moots pela longa fila kilométrica, também encontrei com amigas especiais demais. Camila Brandão, Cacau - Clara Marques, Thaci. A gente já planejava esse encontro há muito tempo, tínhamos (e ainda temos até hoje) um grupo para nos mantermos sempre próximas e comentar toda e qualquer nova notícia que surge, isso mantém nossa relação viva.
A parte boa da fila eu já falei, mas a parte ruim é que a fila de qualquer grande show é um lugar insalubre, e isso quase todo mundo já sabe. Quando o relógio marcava meio dia, o sol já era insuportável, o calor derretia a maquiagem. Começou a formar várias tendas com cangas e lençóis, era delivery chegando para entregar almoço, gente indo e vindo para comprar comida, água, merch, ir ao banheiro de um mercado próximo, tinha de tudo. Não tinha muito o que ser feito além de esperar as horas passarem, mas cada minuto parecia uma eternidade.
Finalmente chegou às 13h44 da tarde, começou-se uma movimentação para formar a fila do Soundcheck, e PASMEM, tinha gente furando fila. A confusão estava formada. Alguns fãs começaram a se movimentar para chamar a produção do evento para organizar melhor, já que não era justo quem madrugou perdendo seu lugar para pessoas que estavam se aproveitando para passar na frente.
Após isso, ainda passamos mais algumas horas aguardando, em pé, até os portões finalmente abrirem.
A fila é um lugar exaustivo, mas também especial demais para criar e reforçar conexões. Aqui algumas fotos do que foi a fila em SP.
Fotos: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
O soundcheck.

Exatamente às 16h10 da tarde eu estava fazendo o meu check-in para ir para o soundcheck, e eu não fazia a mínima ideia do que esperar. Essa era a minha primeira experiência tão intimista com a minha banda favorita, e, pra ser sincera, talvez o relato desse momento contenha apenas flashes, pois 1. não era permitido filmar, 2. minha memória embaralha tudo a respeito desse dia. Essa reportagem com certeza me ajudará a guardar melhor essas memórias de forma duradoura.
Entramos no local do show e aguardamos no hall até sermos liberadas para correr para a grade. Esse era o momento de ir ao banheiro pela última vez antes do show, porque depois que estivesse de frente ao palco, isso seria impossível, ou era perder o lugar na grade. Fizemos algumas plaquinhas para chamar a atenção da banda. Peguei um papel e um batom que estava na bolsa e escrevi as minhas placas que diziam “ash, give me your drumstick” e “come back soon! real.”.
Foto: Arquivo pessoal/ Dayane Cibelle
Minutos depois escuto da produção:
“Atenção, vamos liberar a entrada para o palco para dar início ao soundcheck. Não Corram! Quem correr, vamos mandar voltar pro final da fila.”
Gelei.
Era a hora. Depois de 12 horas de fila, acelerei o passo para chegar o mais rápido possível na grade, mas sem correr. Consegui um lugar na segunda fileira, a uma pessoa de distância da grade, bem em frente ao Michael, o guitarrista, exatamente como no show do Rio de Janeiro. Dessa vez, estava acompanhada da Kaoma e da Nala. A Bruna se separou de nós e foi para o lado do Calum, o baixista.
Mas vamos lá… pequena lista do que me recordo soundcheck:
1. O Luke Hemmings com a camisa do The Smiths.
Fim da lista 😀.
Brincadeiras à parte, o soundcheck foi uma conversa da banda com os fãs, me senti como se tivesse batendo um papo com alguns amigos, os ouvindo atentamente em cada palavra. Eles foram completamente gentis e atenciosos.
Uma das falas que mais me marcaram, foi quando o Calum falou que eles e a banda coexistem, e sempre procuram manter um nível alto conforme eles se desenvolvem, que o objetivo é sempre se manterem felizes e esperam fazer música por muito tempo. Isso nunca saiu da minha mente e diz muito sobre quem eles são como banda, sempre focados em fazer músicas que tenham a essência deles e que se conectem com quem as escuta.
Não tenho dúvidas que esse é um dos motivos que os tornam autênticos no que fazem e sem filtros ou barreiras que os distanciam dos fãs, pelo contrário, fazer músicas reais, para pessoas reais é algo intrinsecamente ligada a forma de criação deles, e isso é identificável para o público.
Após o papo, eles tocaram duas músicas, uma antiga, do primeiro álbum, “Long Way Home”, e “Valentine” do quarto álbum. Nunca imaginei que a Dayane de 2023 ouviria “Long Way Home” ao vivo, certamente isso não estava no meu bingo da vida.
A experiência de um soundcheck provavelmente é um dos maiores feitos que um fã pode ter a oportunidade de viver.
The 5 Seconds Of Summer Show. Uma experiência além da música.

Fonte: X / Reprodução Internet
A performance para essa turnê foi toda minimamente pensada de banda para fã. Quem não era fã, até curtia o show conhecendo apenas as músicas. Mas quem era fã teve uma experiência personalizada, um gosto especial e pessoal.
Muito se fala de experiências no mercado do entretenimento ligado a propostas inovadoras, mas o que seria essa tal experiência proporcionada ao público? Para mim, passa pelo “quebrar expectativas e ir além”, fazer o inesperado e colocar o público como protagonista, e não apenas como espectadores passivos.
Foi ali, mais uma vez, que a banda provou por completo que a sua conexão com os fãs, construída ao longo dos anos, principalmente por intermédio das plataformas online, que se transformou em uma turnê interativa com narrativas transmídias, que brincavam com interações através de esquetes em vídeo nos intervalos entre as músicas e também fazendo algumas dinâmicas com os fãs ao longo do show, todos os esquetes foram criados pela banda e filmados para elevar o nível da experiência dos fãs.
Para começar, uma das maiores surpresas para essa turnê foi a montagem da setlist. Eles foram além do esperado. A escolha das músicas foi feita de forma que resgatou todas as eras da banda, contendo músicas do primeiro ao quinto álbum, o quinto sendo o último lançado até o momento da turnê.
Ouvir músicas antigas deles em pleno 2023, quem imaginaria? Para quem estava vivendo um show deles pela primeira vez, como muitos fãs brasileiros que não tinham experienciado as turnês passadas, era como se tivesse tendo a grande e única chance de ouvir aquelas músicas ao vivo.
Antes mesmo da turnê iniciar, a banda incentivou aos fãs a especularem sobre a setlist nas redes sociais, onde criou-se uma onda de interações e caça-pistas para desvendar o que estava por vir, deixando lacunas propositais para que o público conectasse as peças.
Fonte: X / Reprodução Internet
Fãs são, por natureza, profundamente nostálgicos. Gostam de revisitar momentos e eras marcantes da trajetória de seus ídolos, pois isso traz uma sensação de conforto, pertencimento e conexão. Sabendo bem desse vínculo emocional, a 5SOS foi certeira ao construir cada detalhe, criando uma experiência que dialoga diretamente com o coração de quem os acompanha. Agora, vamos mergulhar comigo nessa experiência do The 5SOS Show.
Os esquetes.

Vídeo: The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
O show inicia com um esquete de abertura apresentando integrante por integrante e fazendo uma transição deles saindo do telão e entrando no palco. Se existe um ponto alto para medir o pico de decibéis desse show, talvez esse seja o momento de ápice. Ver a banda surgir na sua frente é mágico, é reafirmar que aquelas pessoas existem para além da tela do seu celular ou do seu imaginário. Elas são reais.
E como se a magia desse momento não fosse suficiente, Michael surgiu no palco vestindo uma camisa da seleção brasileira, com o sobrenome “Clifford” estampado nas costas. Foi a cereja no bolo. A grande impressão que tive desse gesto foi que ele queria retribuir o amor e a energia que havia recebido no primeiro show. Ver aquela cena, ele trajando a camisa do meu país, me emocionou em altos níveis. Foi uma imagem que ficou marcada na memória e que reforçou o quanto a banda valoriza essa troca cultural com o público.
Após uma sequência de oito músicas energéticas, o palco ficou em uma penumbra e os integrantes da 5 Seconds of Summer saíram de cena para uma rápida troca de instrumentos. O público, ainda ofegante e tomado pela adrenalina, foi surpreendido pelos telões que iluminaram o ambiente com o segundo esquete da noite, uma pausa cômica e cuidadosamente planejada.
Na tela, os membros da banda apareceram vestidos de jaleco azul, atuando como médicos em uma consulta peculiar. A perspectiva era clara: estávamos no lugar de um fã sendo "atendido" por médicos. No início, a cena parecia corriqueira, mas logo veio a primeira piada interna. Um deles comentou que precisavam remover a camisa xadrez que estava amarrada na cintura do paciente e, em tom brincalhão, diagnosticaram: “Não parece muito bem, ainda está usando skinny jeans preto... Não estamos mais em 2014”.
O público soltou risos. Era impossível não reconhecer a brincadeira com a nostalgia do fandom, que frequentemente menciona nas redes sociais sua saudade pela primeira era da banda, quando o visual e o som pop punk eram a marca registrada. Skinny jeans preto, camisa longa quadriculada, braceletes, uma camisa escrita “you complete me’ss” ou rasgadas, cabelo colorido e lip ring: esse é o starter pack perfeito para definir essa era.
Ao final, o diagnóstico dos “médicos” foi anunciado com uma mistura de humor e carinho: “Você foi diagnosticado como fã do 5SOS.”. Eles sabiam o quanto isso pegava no emocional e fazia os fãs mais antigos e nostálgicos se sentirem pertencentes. Bingo! Mais um ponto de conexão criado. Em seguida, o conselho vindo deles: “você precisa desacelerar”. Afinal, até ali, os fãs haviam enfrentado uma enxurrada de energia e emoção com a frenesi das músicas. Esse esquete veio para frear a adrenalina.
E ah, preciso mencionar que os esquetes apareciam no telão sempre legendados em português, adaptado para o público brasileiro.
Vídeo: The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
O esquete terminou, e o público mal teve tempo de respirar antes de as luzes do palco reacenderem suavemente. Os acordes de Amnesia (2014), uma das baladas mais introspectivas da banda, começaram a preencher o espaço, trazendo um contraste necessário. O público, que momentos antes cantava e dançava freneticamente, agora balançava os braços erguendo os celulares com a lanterna acesa e entoava cada palavra em uníssono.
Vídeo: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
O dado.

Esse momento foi, sem dúvidas, o mais especial para mim em todo o show. Ele capturou a essência da relação entre a 5SOS e seus fãs: uma dinâmica de troca, surpresa e mais nostalgia.
Podemos ver claramente que nostalgia talvez seja um dos sentimentos que mais definem a jornada dos fãs durante esse show. A proposta do dado é uma resposta da escuta ativa da banda para com o fandom, de uma curadoria e social listening afiado. É como se a banda definitivamente tivesse entendido os pedidos insistentes dos fãs para revisitar músicas do início da carreira, aquelas raridades que, por anos, ficaram fora das setlists.
Para ficar ainda mais hilário e afirmar que vale tudo pelo entretenimento com o público, preciso dizer que algumas das músicas antigas não são as mais favoritas deles, mas foram incluídas no dado e na setlist para fazer o gosto dos fãs, como Heartbreak Girl (2013) e Don't Stop (2014).
Fonte: X / Reprodução Internet
A proposta era simples, mas inovadora: no telão, a segunda esquete da noite mostrou os integrantes reunidos em uma mesa de pôquer, explicando ao público as regras de uma dinâmica que iria rolar ao vivo. A cena tinha o tom descontraído que caracteriza a banda. Até que vieram com um dado gigante ao final do esquete, cada face representando uma música antiga dos primeiros EPs, de uma época em que a banda nem sequer havia lançado um álbum completo.
O jogo consistia em lançar o dado para o público, que precisava rolá-lo entre si e devolvê-lo ao palco dentro de um tempo pré-determinado. Se a gente falhasse, a banda escolheria a música a ser tocada.
The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
Os telões destacavam as seis músicas do dado e a banda apareceu de volta no palco, segurando o dado inflável gigante que agora tinha a difícil missão de atravessar as mãos do público brasileiro.
Do meu lugar, era empolgante assistir àquela interação: fãs seguravam, empurravam, gritavam e torciam, mais determinados a tocar no dado do que devolver ao palco no tempo certo. Era mais do que um jogo, era um momento de diversão total. E expectativa também.
Cada um manifestava para cair na sua old song favorita. Eu torcia para que fosse Wrapped Around Your Finger (2014), pois daria milhões para ouvir o Michael cantá-la ao vivo na minha frente. Spoiler: Não foi dessa vez.
Quando o dado finalmente voltou ao palco, o vocalista Luke Hemmings anunciou a música escolhida, mas não sem gerar uma onda de reação do público. Assim que ele começou a falar, as pessoas ao meu redor, eu incluída, começaram a dizer em coro: “Não, não, não, não, não!”, já antecipando o que estava por vir.
O dado caiu em Heartache On The Big Screen (2014). No final, a verdade é que não importava em qual música caísse, mesmo reivindicando, em seguida todo mundo ia gritar plenos pulmões a música escolhida. E foi o que aconteceu.
Mais do que a música escolhida, era a dinâmica, a interação e a sensação de estar ali sendo parte daquele momento que realmente importava. O que ficou marcado foi a experiência coletiva. A banda resgatou a lembrança de sua era inicial e fez isso de uma maneira que nos colocou no centro da escolha, envolvendo ativamente a participação do público. Não estávamos ali apenas assistindo, mas participando efetivamente, conectados uns aos outros e à banda de uma forma gamificada. Essa troca, entre palco e plateia, entre presente e passado, torna a comunidade de fãs ainda mais próximos do universo da 5SOS, aumentando o engajamento com o fandom e promovendo a sensação de fazermos parte daquele storytelling do show. Só posso chamar tudo isso de: GENIAL. Aqui eles foram marcantes.
Foto: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
Best Friends Cam.

A história da 5 Seconds of Summer é, antes de tudo, sobre amizade. Desde muito jovens, Luke, Calum, Michael e Ashton construíram um laço que só cresceu com o tempo, e isso é algo que encanta quem os acompanha.
Hoje, tenho amigas incríveis espalhadas pelo Brasil e até em outros países, pessoas que provavelmente eu nunca teria conhecido sem essa ponte proporcionada pela música e pela interação online. E isso não é apenas sobre nós, fãs. É algo que a própria banda entende e valoriza. Por isso afirmo: os fandoms são espaços férteis para a formação de comunidade e amizades duradouras.
Durante a apresentação, uma música Best Friends (2022) , do último álbum, foi colocada na setlist em um momento muito especial. A proposta era celebrar a amizade, a conexão, a alegria de estar ali, lado a lado com quem amamos. A ideia, trazida por Michael, o guitarrista, era usar a “Best Friends Camera” para capturar tanto a união dos integrantes no centro do palco quanto os amigos no público, refletidos nos telões. Foi um momento de euforia e de significado.
Vídeo: The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
Essa dinâmica carrega tantas camadas que vão além da música. Ela representa os elos que se criam dentro de um fandom, que permanecem para a vida, tal como aconteceu com eles e acontece conosco. Esse espaço e esses elos permitem que se crie uma rede de suporte entre indivíduos que muitas vezes se sentem deslocados em outros contextos sociais.
Música é isso: uma aliança que aproxima as pessoas e constrói histórias compartilhadas. Ali, naquele instante, estava todo mundo conectado.
“Memories I hold to keep safe And I live for that look on your face I got the best friends in this place And I'm holding on”
Durante "Best Friends" com a Kaoma e a Nala.
Vídeo: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
Ashton vs You
Ashton Irwin, o baterista da 5 Seconds of Summer, no centro do palco, iluminado por um holofote, pronto para um duelo. Mas não era contra outro integrante, e sim contra nós, o público. A dinâmica colocava os fãs como protagonistas, transformando a plateia em parte ativa do show, mais uma vez.
No telão, a mensagem "Ashton vs You" aparece em letras grandes, acompanhada de uma barra de progresso que indicava quem estava ganhando. No primeiro round, Ashton exibe seu talento em um solo de bateria, enquanto na tela surge a palavra SLAP (palmas), incitando o público a bater palmas em resposta ao ritmo frenético. Palmas, gritos e risadas ecoavam, criando um som coletivo respondendo ao Ashton.
No segundo round, o nível sobe. A palavra SCREAM (gritar) surge no telão, desafiando os fãs a gritar o mais alto possível para superar o poder da bateria. A intensidade do momento era quase ensurdecedora, o som dos gritos competindo com os tambores fazia o tudo vibrar.
E então, ao final: o telão exibe ASHTON WINS, YOU LOSE, seguido por uma onda de mais gritos.
Vídeo: The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
Mas antes que houvesse tempo para processar, a banda inteira entrou em cena novamente, as guitarras se juntam à bateria, que levanta ainda mais a plateia. Foi de arrepiar. Saudades do que vi e vivi.
Não posso deixar de mencionar também o gesto de Ashton, que nos deu o gostinho de vê-lo tomar um Guaraná ao ‘vivasso’ na nossa frente, um ato de conexão cultural que reforça a identidade coletiva com a audiência. Um verdadeiro kingo, né?
Fonte: X / Reprodução Internet
Fonte: X / Reprodução Internet
Encore.
A banda se preparava para tocar um dos seus maiores sucessos, “She Looks So Perfect”. A atmosfera mudou instantaneamente. Sabíamos que o show estava perto do fim.
Após os últimos acordes da música, as luzes se apagaram, e a banda deixou o palco. Mas o silêncio durou pouco. No telão, um esquete começou a ser exibido, o último da noite.
A história era cômica, como todas as que eles criaram ao longo das narrativas. No fictício "Cone Hotel", uma piada interna que se refere a turnê anterior, os integrantes aparecem envoltos de roupões de banho, simulando uma conversa pós-show.
Eles foram abordados pela recepcionista do hotel, que, empolgada, queria saber como havia sido o show. De repente, o telefone da recepção tocou. A recepcionista atendeu, e sua expressão mudou ao dizer: “Sim… eles estão bem aqui…”, os encarando, e então ela fala: “Parece que eles querem mais uma música...”. O público explodiu em um grito único, e a energia tomou conta do lugar.
Michael perguntou: “Tem certeza que eles querem mesmo mais uma música?”. A recepcionista, astuta, colocou o telefone ao lado da banda, para que eles pudessem ouvir o som que emitia.
Do outro lado da linha, ou melhor, do lado de cá, os gritos ensurdecedores do público parecia atravessar o aparelho, implorando por um encore, em contexto musical, encore refere-se a uma música extra tocada ao final de shows. Luke, com um olhar desafiador, expressa: “Se eles realmente querem mais uma música, vão ter que pedir mais alto!”. Foi a senha para um coro ensurdecedor de “5SOS! 5SOS! 5SOS! 5SOS!” tomasse conta.
Vídeo: The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
E então, eles voltaram ao palco de forma inusitada, vestindo os mesmos roupões do esquete, arrancando risadas. Eu, no meio da multidão, senti uma mistura de alegria e melancolia ao perceber que aquele era o ato final.
Quando os primeiros acordes de Outer Space (2015) ecoaram, perdi completamente a noção do tempo. Essa música sempre foi uma das mais significativas para mim, uma trilha sonora que marcou momentos importantes da minha vida. Lembro de ouvi-la repetidamente no auge dos meus 18 anos, como se fosse um hino, um ritual, uma música que tinha o poder de curar tudo. Enquanto cantava em voz alta, notei que meus olhos não desgrudavam deles no palco. Sabia que talvez essa fosse a última vez que os veria ao vivo naquela tour, ou por um bom tempo, e isso tornava cada segundo ainda mais precioso. Em meus planos, quero vê-los muito mais vezes e muitos outros shows, mas as oportunidades ficariam à cargo de um futuro incerto.
Vídeo: Arquivo pessoal / Dayane Cibelle
A penúltima canção se foi, e, para encerrar a noite, eles escolheram “Youngblood”. Não era apenas a música mais famosa da banda, com mais de um bilhão de reproduções no Spotify, era também o ápice de energia que o público precisava para aquele “até logo”. Gritavamos as letras como se dependêssemos disso para respirar, e a banda parecia absorver essa energia e nos devolver reciprocamente.
Em meio à catarse, o filmmaker da banda, Ryan, registrava o momento, capturando os rostos dos fãs emocionados e as vozes roucas que cantavam com todo o fôlego. Foi especial. Eles se despediram com a bandeira do Brasil em mãos, jogaram palhetas e baquetas para os fãs mais sortudos e agradeceram como se também fossem gratos pela conexão que criamos naquela noite.
Vídeo: The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam). Fonte: 5 Seconds Of Summer / Youtube / Reprodução Internet
“Eu estou aqui e isso está acontecendo em tempo real e eu estou vendo as pessoas se conectarem com a música, e eu estou vendo todo mundo crescendo, estou vendo as pessoas cantando as músicas favoritas delas, e também estou vendo aquelas músicas que eles não gostam tanto, e estou vendo aquelas que surpreendentemente gostam mais do que outras. Tem sido a jornada mais selvagem e louca ao longo dos anos, e tudo o que queremos fazer é garantir que nossos fãs se divirtam com tudo o que a gente fez e as músicas que criamos, e os shows que fizemos, e nos conectar com eles.” - Michael Clifford, The 5 Seconds of Summer Show (Live & Backstage In Amsterdam)
Coincidentemente, nessa parte em que Michael compartilha suas palavras no The 5 Seconds of Summer Show Live & Backstage In Amsterdam, performance que eles publicaram no YouTube, ele traduz exatamente o que vivemos naquele momento. O laço recíproco entre a banda e os fãs. No vídeo, enquanto ele fala, aparecem cenas dos fãs ao redor do mundo, incluindo um take do show em São Paulo. Lá estava eu, no meio da multidão, emocionada e completamente imersa, capturada pela lente de Ryan no final daquela noite inesquecível.
Assim como para mim, esses shows foram profundamente marcantes para centenas de outros fãs. No Brasil, sabemos que assistir a um show muitas vezes exige grandes esforços, especialmente para quem precisa se deslocar de outros estados para o eixo Rio-São Paulo. Durante os eventos, foi impossível ignorar as histórias de fãs que enfrentaram longas jornadas, vindos de cidades distantes, determinados a concretizar um sonho. E, claro, havia também aqueles que já viviam nas cidades que receberam os shows. Clara, Camila e Kaoma estavam "em casa", tendo a honra de vê-los em seu estado, SP. Thaciana e Beatriz, assim como eu, saíram do nordeste para viver essa realização. E mais, a Beatriz teve a sorte de poucos , de voltar para Caruaru/PE com muito mais que suas memórias, mas com o registro de fotos com os integrantes, e um CD autografado.
Cada esforço, seja nas horas de fila, nas viagens cansativas ou no desgaste físico, carrega um valor emocional incalculável. Aposto que, se perguntássemos a cada um desses fãs se fariam tudo de novo, a resposta seria um unânime “sim”, sem hesitar. Eu, certamente, faria.
clara marques


Fotos: Arquivo pessoal / Clara Marques
kaoma almeida


Fotos: Arquivo pessoal / Kaoma Almdeira
thaciana barreto



Fotos: Arquivo pessoal / Thaciana Barreto
camila brandão



Fotos: Arquivo pessoal / Camila Brandão
beatriz ribeiro




Fotos: Arquivo pessoal / Beatriz Ribeiro
A 5 Seconds of Summer provou que, para entregar uma experiência verdadeiramente memorável e com significado, o segredo está em nutrir e valorizar a comunidade que construíram ao longo de sua trajetória. Uma frase famosa do Michael Clifford ecoa na mente e dá sentido a tudo o que vivemos: “Real bands save fans, real fans save bands.”. Foi isso que vimos e sentimos, uma troca genuína, onde fãs e banda se apoiam, crescem juntos e transformam cada segundo em algo genuíno. O saldo dessa turnê foi mais do que positivo: foi uma experiência que nos marcou de maneira visceral, como se cada acorde e cada grito coletivo tivesse sido imortalizado, criando uma recordação que, mesmo com o passar do tempo, jamais vai ser esquecida. Foi um capítulo gravado na alma, com um gosto inconfundível de “queremos mais”.
Fonte: X / Reprodução Internet
Sinto que escrever sobre essa vivência é como se cada palavra fosse uma tentativa de preservar as memórias nítidas que guardo, como um rito para proteger tudo num lugar sagrado da minha mente. É como se eu precisasse eternizar de todas as formas possíveis, para que jamais se apague ou enfraqueça. Revivo os flashes de luz, as notas das músicas e as emoções à flor da pele. São lembranças que carrego comigo e que, mesmo quando a saudade aperta, estarão sempre vivas em cada registro e em cada batida do meu coração.




























